21 de Fevereiro, 2026 16h02mArtigo

Tempo de conversão e tempo de humanidade

Pe. Tiago Vinícius Raimundo Caetano Assessor da Campanha da Fraternidade A Quaresma é um tempo forte da vida da Igreja, marcado pela conversão do coração, pela escuta atenta da Palavra de Deus e pela prática concreta da caridade.

Pe. Tiago Vinícius Raimundo Caetano

Assessor da Campanha da Fraternidade

A Quaresma é um tempo forte da vida da Igreja, marcado pela conversão do coração, pela escuta atenta da Palavra de Deus e pela prática concreta da caridade. Durante quarenta dias, os cristãos são convidados a rever atitudes, fortalecer a fé e renovar o compromisso com o Evangelho, preparando-se espiritualmente para a celebração da Páscoa do Senhor. Nesse caminho quaresmal, a Igreja no Brasil propõe, todos os anos, a Campanha da Fraternidade como expressão concreta de penitência, solidariedade e compromisso social, ajudando os fiéis a viverem uma fé encarnada na realidade.

Em 2026, a Campanha da Fraternidade convida toda a Igreja no Brasil a refletir e agir a partir do tema “Fraternidade e Moradia”, iluminado pelo lema bíblico “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Ao escolher esse lema, a Igreja propõe uma profunda reflexão teológica e social a partir do mistério da Encarnação, recordando que Deus não permaneceu distante da história humana, mas assumiu nossa condição e fez da realidade do povo o seu lugar de morada. O verbo “morar”, presente no Evangelho de João, expressa proximidade, cuidado e compromisso: Jesus armou sua tenda entre nós, partilhou nossas alegrias e dores e viveu a realidade concreta de um povo marcado por desafios, limites e esperanças.

À luz dessa verdade de fé, a Campanha da Fraternidade de 2026 provoca as comunidades cristãs a olharem com sensibilidade e responsabilidade para a realidade da moradia no Brasil, reconhecendo-a não apenas como uma necessidade básica, mas como um direito humano fundamental e uma exigência da dignidade da pessoa criada à imagem e semelhança de Deus. A falta de moradia adequada, as habitações precárias, o crescimento das populações em situação de rua e a desigualdade urbana revelam uma grave ferida social que atinge milhões de pessoas e denuncia uma injustiça estrutural que fere o projeto de Deus.

Nesse contexto, a Campanha da Fraternidade reafirma que a moradia não é apenas uma questão econômica ou política, mas uma exigência ética e evangélica, diretamente ligada à justiça social, à dignidade humana e à vivência concreta da fraternidade. O lema que também inspira esta reflexão — “Habitai na justiça” (cf. Is 32,16) — recorda que somente relações, estruturas e políticas fundamentadas na justiça podem garantir uma convivência verdadeiramente fraterna e promotora da vida.

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O objetivo geral da Campanha da Fraternidade 2026 é promover, a partir da Boa Nova do Reino de Deus e em espírito de conversão quaresmal, a moradia digna como prioridade e direito, junto aos demais bens e serviços essenciais a toda a população. Entre os objetivos específicos, destacam-se o aprofundamento da reflexão sobre a realidade habitacional brasileira; a sensibilização para as causas estruturais da exclusão e da desigualdade; o incentivo à participação cidadã e ao compromisso com políticas públicas justas; o fortalecimento da cultura do cuidado e da solidariedade; e a promoção de ações concretas de acolhida, partilha e defesa da vida.

Viver a Quaresma à luz da Campanha da Fraternidade é compreender que jejum, oração e esmola não se limitam a práticas individuais, mas se traduzem em compromisso com a transformação da realidade. O jejum se converte em sobriedade e justiça; a esmola se torna partilha concreta; e a oração fortalece a esperança e sustenta o engajamento cristão na construção do bem comum.

Assim, a Quaresma e a Campanha da Fraternidade 2026 convidam cada fiel a assumir uma postura comprometida e solidária. Ao contemplar Cristo que veio morar entre nós, somos chamados a reconhecê-lo presente nos irmãos e irmãs que não têm um lugar digno para viver, transformando a fraternidade em compromisso concreto e a fé em gestos que constroem uma sociedade mais justa, humana e solidária, onde todos possam, de fato, habitar na justiça e viver com dignidade como filhos e filhas do Pai.

Santa Fé do Sul, 15 de fevereiro de 2026

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