Quando a fé também impulsiona o desenvolvimento
Todos os anos, milhares de pessoas percorrem quilômetros movidas por um propósito que vai muito além da caminhada.

Todos os anos, milhares de pessoas percorrem quilômetros movidas por um propósito que vai muito além da caminhada. A Romaria Diocesana de Jales, que chega à sua 42ª edição, é uma expressão de fé, devoção e encontro entre comunidades de toda a região. Mas ela também evidencia um aspecto que nem sempre recebe a mesma atenção, o impacto que grandes eventos comunitários exercem sobre a economia local.
É comum associarmos desenvolvimento econômico a grandes indústrias, investimentos ou obras de infraestrutura. No entanto, muitas cidades da nossa região encontram em suas tradições culturais, religiosas e populares importantes motores para movimentar o comércio, gerar renda e fortalecer os pequenos negócios.
Quando os romeiros vão a Jales, eles não trazem apenas suas orações. Eles almoçam em restaurantes, fazem uma pausa para um café, abastecem seus veículos, compram água, lembranças, artigos religiosos e presentes. Alguns aproveitam para conhecer a cidade, visitar o comércio ou até permanecer por mais tempo na região. Cada uma dessas escolhas movimenta uma extensa cadeia de serviços e cria oportunidades para centenas de empreendedores.
Esse é um exemplo claro de como o turismo de fé vai muito além do aspecto religioso. Ele representa um segmento capaz de fortalecer economias locais, especialmente em municípios do interior, onde o comércio é formado majoritariamente por pequenos negócios. São empresas familiares, microempreendedores e prestadores de serviço que encontram nesses eventos uma oportunidade para ampliar suas vendas e conquistar novos clientes.
Mas aproveitar esse potencial exige planejamento. O aumento temporário do fluxo de consumidores não garante resultados por si só. Estoques organizados, atendimento de qualidade, equipes preparadas e presença digital eficiente fazem toda a diferença para transformar um movimento pontual em uma experiência positiva, capaz de fidelizar quem visita a cidade.
Há também um aspecto simbólico importante. Quando uma cidade valoriza seus eventos tradicionais, ela fortalece sua identidade. Isso cria pertencimento para quem vive ali e desperta interesse em quem vem de fora. A tradição deixa de ser apenas uma lembrança do passado e passa a fazer parte de uma estratégia de desenvolvimento baseada naquilo que o município tem de mais autêntico.
Em tempos em que tantos municípios buscam alternativas para estimular a economia, olhar para os próprios ativos culturais e religiosos pode ser um caminho inteligente. Afinal, desenvolvimento também nasce da capacidade de transformar vocações locais em oportunidades.
A Romaria Diocesana de Jales mostra exatamente isso e enquanto fortalece a espiritualidade de milhares de fiéis, também aquece o comércio, impulsiona o setor de serviços e gera renda para inúmeras famílias. É a prova de que fé e desenvolvimento não caminham em direções opostas. Pelo contrário, quando uma comunidade se une em torno de suas tradições, todos avançam juntos.
A Romaria mostra que as maiores riquezas de uma cidade muitas vezes estão em sua história, em sua cultura e na força de sua gente e quando esses elementos encontram um ambiente preparado para acolher visitantes e incentivar o empreendedorismo, os benefícios ultrapassam um único dia de celebração e se transformam em desenvolvimento para toda a região.
Márcio Neves é analista de negócios do Sebrae-SP.
